domingo, 22 de maio de 2011

amanda gurgel, "por uma vida melhor" e internet

A aula de Amanda Gurgel no twitter... 
“por uma vida melhor”

Nunca antes na história desse país uma página de um livro didático gerou tanta polêmica como a página 14 do livro “Por uma vida melhor”. A discussão deveria ser voltada a esse título de auto-ajuda mais chinfrim, mas a Veja e seus discípulos preferiram falar daquilo que não sabem pra atacar aquilo que querem: o MEC e, conseqüentemente, o governo Dilma. Não, não sou petista, mas fiquei assustado com a ofensiva contra o livro que, na página maldita, fala que o falante deve escolher a forma adequada para cada situação. Isso está errado? Para mim está adequado. Uma coisa sou eu numa roda de amigos; outra, na cela de aula; outra, em uma solenidade e outra, aqui, proseando solenemente com você, leitor amigo. Diante dessa novela toda, me lembrei da professorinha que me ensinou o beabá explicando que a língua é um “fenômeno cultural e dinâmico”. Aquilo que ela me dizia, de uma forma simples, era uma introdução ao que eu veria anos depois nas aulas de Antropologia e pelos bares da vida. Então, por que tanto bafafá?
Em uma semana em que a (falta de) educação foi uma das grandes pautas nacionais, muitos ocuparam espaços públicos pra repetir o mais do mesmo de uma polêmica que mais revelou a ignorância (já conhecida) da classe média, que se acha muito sabida (assistir aqui), do que os reais problemas da educação em nosso país. Um grande Febeapá, de mal entendidos e de má-fé, passava pelos nossos olhos... “livro adotado pelo MEC defende erro”, diz o Estadão; “livro didático faz a apologia do erro”, ataca o Reinaldo “azedo”; “Linguistas aceitam tudo”, não sei quem vocifera. Tudo conversa fiada propagada pela net. Sobre isso: sugiro o texto esclarecedor “Polêmica ou Ignorância”, do lingüista Marcos Bagno, que cê acha facim, facim, aí no Google. A “infernet” não propaga só merda, não – ela dá a merda e o papel higiênico. Como diria um mineiro amigo meu: “Não sou contra, nem a favor... muito pelo contrário!”
Agora falando sério. E não é de ver que, nessa mesma semana em que ri horrores das discussões em torno do livro da professora Heloisa Ramos, também quase chorei (e não foi de rir) ao ver o depoimento da professora Amanda Gurgel? Aí sim, vemos uma professora, de Português, dando aula de dissertação, sociologia, cidadania e o escambau. Se ainda não viu: corra no youtube e procure, pois é, enquanto relato, um dos maiores documentos contemporâneos a respeito da situação trágica da educação brasileira. A aula exemplar, que apenas revisava o que todo mundo já tá careca de saber, levou o nome de Amanda Gurgel, que não tem twitter, à estratosfera do TT World (o “topo do twitter do mundo”, ápice dos temas mais badalados). O diferencial da aula dela (“por uma vida melhor” – para os professores) não está no conteúdo em si, mas na forma contundente com que se expressou, calando os Deputados ali presentes.  Amanda Gurgel, falando de sua situação particular, se universalizava, por representar, ali, a angústia de todos os professores da rede pública de ensino. Amanda Gurgel, militante do PSTU, deu uma aula de “materialismo histórico dialético”, sem citar uma frase do Marx - nesse nosso momento em que Deus e o mundo falam mal, sem ler uma página sequer, do coitado do barbudo. Amanda Gurgel, do Rio Grande Norte, desabafou por nós (eu e meus colegas), professores de Goiás... e do Brasil. É por essas e outras que tenho uma relação amigável com a rede, pois sei que devo sempre aplicar a mensagem bíblica: “separar o joio do trigo”... pois sei que, dentre tantos “azedos”, existe sempre uma Amanda Gurgel.


[no DM]

Um comentário:

Renato Veríssimo disse...

nossa, muito interessante.