domingo, 30 de janeiro de 2011

Sérgio Sampaio para os fãs


“Tenho que cantar bonito pra ninguém botar defeito/ Tenho que cantar no jeito pra ninguém se arrepender ... de ter vindo/ Tenho que me esmerar/ pra nem pensar em matar/ o ouvido / de quem veio comprovar / se estou mesmo no lugar/ devido. / Preciso corresponder ao carinho de quem gosta de mim,/ gente que me acompanhou / e com razão se queixou / que eu sumi / daqui, daqui. / Quero então mostrar algumas das canções que eu fiz distante / longe da cidade, cônjuge, / que agora é como a cama/ da amante. / Quero enfim “tocar logar” (?),/ dizer o verso banal/ e lindo./ E tentar surpreender/ quem só veio para ouvir/ o antigo./ Cantar bem, retribuir/ o carinho de quem gosta de mim,/ gente que me acompanhou / e com razão se queixou / que eu sumi / daqui, daqui/ Aconteceu um novo amor/ Não podia acontecer/ Não era hora de amar/ Agora o que é que eu vou fazer?”

Os versos acima são de uma bela canção do compositor Sérgio Sampaio – capixaba, que veio da mesma terra do “rei” Roberto Carlos, pra ser um gênio “marginal” (à margem) da música brasileira. Não sei se os digitei corretamente. Não sei o nome desta canção. Só sei que é maravilhosa: uma linda melodia e uma poética à flor da pele. Só sei que esses versos chegaram através do milagre da internet. Algum fã comenta que essa musica se chama "Cantar Bonito". É um registro da gratidão do artista para com seus fãs. Ela não foi gravada em nenhum disco de Sérgio, permaneceu inédita. Seus fãs só podem conhecê-la graças a mágica do mundo virtual. Uma imagem do compositor, transpirando vida, em seus últimos anos aqui na Terra. Para entender o que digo: procure no youtube um vídeo com o mesmo título deste meu texto de hoje.

Ali, naquele vídeo, Sérgio Sampaio, “poeta do riso e da dor”, cantava para uns 3 amigos bêbados, sua verdade, “cruel” verdade. “Pérolas aos porcos?” Não! Pérolas para aqueles seres humanos, ouvindo a poesia real, sem meio termo. Sérgio sabia que “um livro de poesia na gaveta não adianta nada, lugar poesia é na calçada, lugar de quadro é na esposição”. Na informalidade do momento, o som e a vida de Sérgio acontecia, com sofisticação e simplicidade. Sérgio, biográfico e universal, fazia seu show para aquelas pessoas que dedicavam atenção à sua música, que o admiravam, apesar dele ter sido vomitado das paradas de sucesso. Mesmo sem microfone, sem os holofotes, sem maquiagem, sem a presença da imprensa, um lindo show acontecia.

Não sou religioso, mas acho que o show é um momento sagrado. Já toquei em várias ocasiões, de teatros cheios à rodas para poucas pessoas. Não importa se estou no Ibirapuera ou em uma escola estadual: o respeito para com o publico, com essa “gente que me acompanha”, é fundamental, sempre. Depois de ouvir a “Canção Bonita” de Sérgio Sampaio, o que eu tenho a me dizer? “Diego, continue tocando pra 1 pessoa, como se estivesse tocando pra 1 milhão”. Seja pra agradar ou pra agredir. Seja: sempre você! O show é um momento sagrado. “Preciso corresponder ao carinho de quem gosta de mim”.


(publicado no jornal Diário da Manhã)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

a caminho de sampa: PARA PIRAR NO IBIRAPUERA!!!


Rota:

1 - Quinta: "pit-stop" em Uberlândia:


2 - Sexta: pocket show no Espaço Soma, em Sampa,
durante o tradicional happy hour da casa

(CONCORRA A INGRESSOS PARA NOSSO SHOW NO IBIRAPUERA
NO TWITTER DA MAISSOMA http://twitter.com/maissoma ) !!!!


3 - Sábado: "dia de princesa" no Ibirapuera!

Sobre o show "Gloom + Diego e O Sindicato":



quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

TOCAREMOS NA 1ª NOITE FORA DO EIXO UBERLÂNDIA DE 2011!



amanhã, a caminho de sampa...
parada mais que obrigatória nessa terrinha do meu coração:
uberlândia!




domingo, 23 de janeiro de 2011

Ouvindo o BaRnabé na estrada



No próximo sábado tocarei com a minha banda ( Diego e O Sindicato: www.myspace.com/diegodemoraes ) no Auditório Ibirapuera, em um show que faremos juntamente com a banda Gloom ( www.myspace.com/bandagloom ), apresentando um pouco da nova música produzida em Goiás. Além de nós, na sexta, a banda Violins ( http://www.violins.com.br/) também levará o som deles, com um show comemorativo dos seus 10 anos de carreira. São os goianos, de “fora do eixo” (no meu caso, “dentro do eixo Anhanguera") para o “Sul Maravilha” (termo usado, com ironia, pelo cartunista mineiro Henfil), mostrando que aqui não é apenas um celeiro de duplas sertanejas, mas é um espaço geográfico marcado pela diversidade de estilos. Para informações da aventura: é só ir acompanhando os twitters das bandas. Enquanto isso, ficamos na expectativa, planejando, ensaiando e com aquele friozinho bão na barriga pré-show.

Diante dessa oportunidade, lembrei da minha primeira viagem à São Paulo, no fim de 2007, quando fui selecionado pra tocar no Festival No Capricho. A classificação neste evento nos possibilitou retornar à capital paulista no começo de 2008, pra gravação da música Amigo, nos estúdios da Trama. Fomos num carro dirigido pelo nosso então baterista: Rogério Pafa (figura já lendária na história do rock em Goiás). Lembro-me de cada integrante, durante a gravação na Trama, contribuindo com cada detalhe que compôs aquele fonograma, que hoje vemos como um filho que nos trouxe muita alegria – “parte de nós”. Esta música, circulando pelo mundo virtual, foi parar no mês de dezembro de 2010 numa lista global do jornal inglês The Guardian, inclusive. Não imaginava que esta canção, escrita no meu quarto em Senador Canedo, fosse ter tal repercussão, graças à “bendita internet”.

Após a gravação, voltando pra Goiás, paramos em Piracicaba pra almoçar. Vi numa banca de revistas um cd de causos e músicas do humorista Barnabé. Na hora comprei de lembrança pra mamãe, que sempre comentava sobre o disco de piadas do Barnabé, que ela escutava na casa da tia Catarina, durante a juventude. Não pensei duas vezes e comprei o cd. Barriga cheia: pé na estrada. No caminho entrego o cd pro Pafa colocar no som do carro. De repente, ao adentrarmos o “país dos baurets”, começa a sequencia memoravel de causos. Com seu tom de voz tímido e desconfiado, Barnabé contava suas histórias e cantava suas músicas. Rachamos de rir. O Pafa precisou encostar o carro; pois parecia que íamos morrer de tanto rir. Fiquei até sem ar, com a barriga doendo de tanta gargalhada.

"Depois de comer um bom virado/ eu fui dormir e tive um sonho lindo/ sonhei que tava acordado/ acordei pra ver e tava dormindo” – eram os versos da música O Sonho do Barnabé. Com a pureza de um humor simples e pitadas de malícia, o humorista conseguia fazer sua platéia rir, sem um palavrão, sem apelação, apenas na força do próprio causo. Barnabé era o nome artístico de João Ferreira de Mela, que nasceu em Botelhos (MG). Com 25 anos foi para São Paulo, onde gravou seu primeiro disco de piadas, em 1964. Ele ainda gravaria mais 4 discos até a sua morte, aos 28 anos, em 1968. Depois seu irmão daria continuidade ao emblemático personagem Barnabé.

Na próxima quinta pego a estrada novamente, com meus companheiros de banda. Já vou colocar os “Barnabés” (o humorista e o dodecafônico da “vanguarda paulista”) no meu mp3, pra viajar. Viajar, como diz meu amigo Danislau, “tanto no sentido geográfico-espacial, quanto no sentido filosófico-transcendental”. A vida é uma viagem!

[publicado no jornal Diário da Manhã]


terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Músicas + prosa na Rádio 730

Na semana passada,
bati um papo com Amaury Garcia,
no programa "Estúdio 730",
na rádio 730 AM.

Eles disponibilizam essa participação lá no site deles, ó:

http://www.portal730.com.br/noticias/musica/17353-diego-de-moraes-e-o-sindicato-e-destaque-no-estudio-730.html

---> "Exatamente" hehehe

domingo, 16 de janeiro de 2011

um nirvana em tempos de Wikileaks



[publicado no jornal Diário da Manhã ]


Sexta feira: 14 de janeiro; minha crônica da semana: concluída. Depois de uma boa, e cansativa, semana corrida – planejamento, releituras, livros sublinhados, entrevistas, cordas arrebentadas no violão, dias e madrugadas de estudo e produção, boas e péssimas notícias – e de uma enchente de tragédias estampadas nos jornais. Enfim, conseguia me organizar e terminar o texto semanal pra este espaço, que sempre me esforço pra ser bem gostoso (ou seja, pra que compactue com a imagem aí do lado, da Geléia do Pampinha). O texto estava pronto pra enviar à diagramação do jornal. Antes de clicar na opção “enviar” do email; dou uma espiada no twitter para ver os assuntos que meus “followings” fofocavam. De repente, quando me dou por mim, estou no site de um tal de Dodô Azevedo ( http://www.dodoazevedo.com ) que noticiava: “VAZOU: Lendária mixagem original de In Utero, do Nirvana, já circula na rede”. O quê? Tiro a remela dos olhos pra ler melhor. Imediatamente, boto meu pc pra baixar a pérola. Arquivo o texto que eu tinha feito. E recomeço. Agora sim, podemos iniciar a conversa de hoje.


Angústia adolescente pagou muito bem/ Agora estou entediado e velho” – os dois primeiros versos daquele disco previsto para ser o sucessor do sucesso que “cheirava espírito adolescente”: Nevermind. Situando os versos no contexto... Os olhos de cifrão dos engravatados da gravadora Geffen viam uma multidão ensandecida dizendo: “agora entretenha-nos!”. O ano era 1993. Nirvana, banda que reinava entre gregos e troianos – era pop, era punk, era palhaça, era depressiva, era um pinto na câmera, era poesia – era a síntese de uma “Era”. A banda tinha a obrigação de apresentar para a indústria cultural um novo produto que agradasse público, crítica e, principalmente, os bolsos dos empresários da música veiculada via MTV. Porém, em vez de seguir a cartilha do disco anterior, Kurt Cobain tinha convidado seu ídolo Steve Albini – produtor que ia na contramão da sonoridade das FM’s, por conta das suas famosas gravações sujas e analógicas (“famosas” no submundo). Quando apresentam a mixagem final, a gravadora gosta das canções e detesta a gravação. Decide “limpar”, tornar mais “vendável” aquele som.

No texto onde encontrei o bendito link, Dodô Azevedo define bem a situação de 1993 (em contraposição com a atual): “O mundo underground, na época, estava esperando pelo encontro de Cobain e Albini como uma partida de futebol com Pelé e Di Steffano. A mixagem original de Albini nunca veio à tona. Permaneceu um mistério. Até hoje. Em tempo de Wikileaks, vazou a mixagem de Albini.” Dodô conjectura que se fosse hoje o In Utero de Albini/Cobain teria sido lançado e que ferramentas como o myspace teriam facilitado a vida de Cobain. Ficam as hipóteses, o som e a lenda.

Lembro-me quando ouvi o In Utero pela primeira vez, numa fitinha K7 emprestada por Erickitos, um dos meus melhores amigos – pai do meu afilhado John e criador de belas melodias aqui nesse solo provinciano de Senador Canedo. No começo, eu escutava a música Serve the Servents e achava engraçada, sem saber do significado irônico daquela faixa abrindo aquele disco pesado, desesperado e repleto de sarcasmo. Primeiro ouvi as canções, depois li a legenda e, hoje, chega a gravação “autêntica”.

Bom. Agora que o número de caracteres está acabando e já sugeri o link que trouxe felicidade e nostalgia à minha sexta... posso finalizar o papo e fazer uma cópia desse cd pro meu amigo Erick.

“Think I'm just happy!”




quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

"Os sindicalistas do rock" - matéria no O POPULAR

Hoje no caderno Magazine, do jornal O Popular, saiu uma bela narrativa de @carollalmeida sobre a nossa saga:
Abaixo a matéria na íntegra,
seguida da entrevista que Caroll fez comigo:


OS SINDICALISTAS DO ROCK

por: Caroll Almeida


BANDA DIEGO E O SINDICATO LANÇA O PRIMEIRO DISCO, PARTE DE NÓS, E MOSTRA POR QUE MERECEU TER UMA MÚSICA INCLUÍDA EM LISTA DO JORNAL INGLÊS THE GUARDIAN.


No começo, ele se apresentava apenas com um violão e a irmã na bateria quebrando o galho. No Tacabocanocd, festival realizado pela Fósforo Cultural, Diego de Moraes abocanhou o prêmio de melhor performance e foi para o estúdio gravar. Com o EP Reticências, em 2007, a ideia inicial da banda Diego e o Sindicato surgiu, o grupo caiu na estrada, passou por vários festivais independentes importantes no País e viu suas músicas rodarem pela abençoada internet.

E foi numa dessas, por meio do Music Alliance Pact - um projeto do qual participam 35 blogs especializados de várias partes do mundo -, que Amigo, uma das primeiras composições de Diego, foi parar numa lista de melhores músicas divulgada em dezembro no blog do jornal The Guardian. Nada mal para uma banda que só agora lança o primeiro disco, Parte de Nós. Nada mal para uma banda que começou meio sem querer começar.

Diego não chamou os amigos para fazer barulho na garagem de casa, em Senador Canedo. A banda - formada por Danilo Teles (baixo), Eduardo Kolody (guitarra e sintetizador), Gabriel Cruz (percussão e efeitos) e Hudson Rabelo (bateria) - surgiu por necessidade, no estúdio. E vieram os shows.

Mas, como Diego gosta de definir, "o show era um "happening" e não havia ideia de banda ainda. A cada apresentação o grupo ganhava um nome diferente: já foi Diego e a Classe Operária, Diego de Moraes e Os Imorais, Diego e Os Fritos da Terra, Diego e a KBG... Integrantes entraram, outros saíram (como o baixista Aderson Maia, hoje uma espécie de membro honorário), e a denominação definitiva só veio mesmo quando a coisa começou a ficar séria, no final de 2007, quando, após ganhar o Festival Capricho, em São Paulo, gravaram no Estúdio Trama a faixa Amigo e, por votação popular, tocaram no Goiânia Noise Festival pela primeira vez.

A seriedade agora é evidente. Não aquela seriedade que barra a leveza, o descomprometimento saudável, mas aquela aliada ao profissionalismo. Basta ouvir o disco para saber que a banda, hoje tida como a nova promessa da cena independente goiana, está pronta, lapidada.

Parte de Nós impressiona de cara. As ilustrações de Thiago Xavier fazem qualquer um lembrar o quão bom é folhear o encarte de um disco, prática tão rara em dias de download. Complemento certo para as letras cheias de jogos de palavras do Diego e arranjos do Sindicato, a mistura nada indigesta de suingue, samba, pancadaria, riffs de guitarra, acordes de viola, pandeiro, trovadorismo e um quê de brega mais que bem-vindo.

Com 12 faixas, Parte de Nós traz canções que alavancaram o nome da banda como Amigo, Animal Irracional, Sobrevivo e Todo Dia. Na segunda metade do CD, a genial Pelas Barbas do Profeta, 69, Seu e Quase Nada, provavelmente a melhor faixa. No dia 29, a banda se apresenta no Ibirapuera, em São Paulo, e no dia 3 de março, no Itaú Cultural, também na capital paulista.


Disco:Parte de Nós

Artista:Diego e o Sindicato

Distribuição:Fósforo Cultural

Preço:R$ 10

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Entrevista/Diego de Moraes

"Sou um péssimo cantor’"


Em entrevista ao POPULAR, Diego de Moraes falou sobre a banda, seus outros projetos e a vontade revelada de um dia parar de cantar e só fazer o que mais gosta: compor. Confira:

A banda lançou um disco com composições que muita gente já conhecia. É mais fácil colocar um disco no mercado com músicas que já são aceitas pelo público?

Várias músicas já eram conhecidas dos shows, mas ainda não tinham sido registradas num fonograma. Muitas pessoas só estão conhecendo essas músicas e a banda agora que o CD caiu na rede. Não penso que este tenha sido o caminho mais fácil, não foi pensado intencionalmente. Foi uma situação que aconteceu.

Com tantas composições, por que só agora a banda gravou um CD?

Antes não tivemos possibilidade, financeira e não de inspiração. Por isso, divulgávamos com o EP Reticências, que deu origem à própria banda. Só foi possível começar a gravação em 2009, graças à aprovação na lei municipal (de cultura).

Fora a banda Diego e o Sindicato, você já teve a Filhos de Maria e agora também tem a Pó de Ser e uma dupla sertaneja, o Waldi & Redson. Por que tanta coisa ao mesmo tempo?

É necessário buscar outras possibilidades pra dar vazão ao que quero e gosto de fazer. Cada banda é um universo, fruto do universo que são as pessoas que compõem aquela banda. Gosto disso: de universos em relação. Pó de Ser nasceu em 2009, em um primeiro momento, para tocar as parcerias musicais que eu já vinha fazendo com o Kleuber Garcêz, desde o fim de 2007. O Kleuber compunha para a banda dele, Minadágua, mas queria compor outras coisas, com outras propostas. Assim como eu também queria ampliar minhas possibilidades, como compositor. Então, novamente um encontro e veio a ideia do Pó de Ser.

E por que uma dupla sertaneja?

Waldi & Redson é uma dupla sertaneja que criei com o Chelo (atual baixista do Porcas Borboletas). A gente é muito fã do sertanejo real. Pra gente um grande encontro na música seria um papo do Tião Carreiro com o Johnny Cash, dois timbres graves na voz e chateação no coração. Waldi & Redson também tem influência das histórias de bangue-bangue do Leo Canhoto e Robertinho. Fizemos a dupla porque é o que a gente gosta de verdade, é a nossa raiz, o que escutamos no ranchinho dos nossos avós. Sem falar que hoje as duplas sertanejas não fazem sertanejo, fazem pop-rock. O Chelo costuma dizer que Waldi & Redson é a coisa mais punk que ele fez na vida. Tem gente que acha graça, mas é dor fruto da desgraça das nossas vidas. Vamos começar a gravação do disco Minha Vida Empanzinada.

E quando chegar a hora de dar prioridade para uma apenas? Como vai ser?

Minha prioridade é a arte. É estar em permanente movimentação. Sou professor do Estado, dou aula na cadeia pública de Senador Canedo, o que faço com orgulho, estou terminando o mestrado em História e tenho projetos de poesia e música. Faço muita coisa, não sou "especialista" em nada. Na realidade, a coisa mais importante na minha vida é compor. Eu queria parar de cantar. Sou um péssimo cantor. Mas preciso continuar, pois não encontrei ninguém para cantar minhas músicas... E preciso do show pra expor pro público o que escrevi aqui no meu quarto. Não me considero "músico", sou só um discípulo do verso dos Titãs: "eu não sei fazer música, mas eu faço".

Você não considera nenhum um projeto paralelo?

Ultimamente venho detestando o termo "projeto paralelo". Pra mim não tem isso. Tudo é projeto central. No momento que ensaio, ou escrevo, dedico minhas forças àquilo. E tudo é importante.

Incomoda quando dizem que você é o Raul Seixas do Cerrado?

Hoje não me incomoda mais. Uma vez o Pablo Kossa (produtor cultural e jornalista) me disse algo muito inteligente: "Diego, quando alguém fala sobre você, a pessoa está falando mais dela mesma, do universo dela, do ponto de vista dela, do que ela vê em você."

Mas há uma influência que não se pode negar.

Não nego que muitas canções de Parte de Nós, que escrevi com menos de 20 anos, trazem a marca da influência do Raulzito, que é o grande mito do rock brasileiro, que foi um cara que fez muito minha cabeça, junto com a moçada do rock brazuca dos anos 80 e 90, e ele foi importante quando resolvi sair da igreja, por ter lido a Bíblia inteira por duas vezes. Amo o Raul e odeio o tradicionalismo dos "raul-seixistas" que não vivenciam a mensagem da Metamorfose Ambulante. Agora, uma música como 69 já traz outras influências, de Mutantes, Pink Floyd e no fim ainda cito os Stooges. Ainda em 69 digo "eu quero o novo de novo e o Tonico e Tinoco". E termina com uma pancadaria que nem sei o que é aquilo.

Como é o seu processo de composição?

Cada música surge de uma forma. Tem umas que pego o violão e sai de uma vez. Outras, como Amigo, por exemplo, demoram mais. Amigo eu tinha o riff no violão, mas não conseguia colocar letra. Depois de um tempo, vieram os primeiros versos. Depois, veio a ideia de em cada parte da música acrescentar uma frase e um acorde diferente, para representar o conflito do eu lírico que quer ser original, mas que se sente só "mais um", "uma parte de nós". No começo, era sempre muito espontâneo. Hoje ainda acontece isso, músicas que simplesmente "acontecem". Mas estou gostando cada vez mais da ideia do compositor como um arquiteto da palavra e do som. Tenho me interessado cada vez mais na ideia da canção como construção, tijolo por tijolo. Acho que tem a ver com o processo de compor com parceiros. É muito massa compor em parceria, um brigando com o outro, intervindo, sugerindo. Um filho coletivo. Quero fazer cada vez mais e cada vez mais em parceria.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

AMIGO na coletânea global "Music Alliance Pact"

A música "Amigo" continua me rendendo boas surpresas!
Dias atrás, eu estava "viajando" pela net e, de repente, descubro que,
no mês de dezembro,
ela foi indicada pelo site @meiodesligado
para integrar a coletânea global "Music Alliance Pact" (MAP), ó:
Foi aí que a ficha caiu: a matéria do jornal inglês The Guardian, foi referente à essa coletânea aí!
Massa, né?

Vi, também, que esta notícia foi divulgada em Buenos Aires, Argentina, pelo blog @zonaindie que é o representante lá desta coletânea (...


...) sobre a música, diz o site:




domingo, 9 de janeiro de 2011

Para uma dose de pretensão no seu dia

Dia desses um camarada me chamou de “pretensioso”. Eu logo respondi: “Poxa vida! Obrigado pelo elogio!” Ele ficou com uma cara de tacho, sem entender porque, naquele momento, achei o adjetivo “pretensioso” um grande elogio, que alegrava aquele dia, que trazia vida àquela tarde sem graça, que me entusiasmava a continuar existindo neste “mundo imundo”, que me fazia cócegas no ego e me estimulava, com ternura, a sorrir candidamente daquela situação.

O sujeito simplesmente não entendeu minha reação inusitada. Ele queria que eu visse o tal adjetivo pela ótica do sonso comum, como um sinal de falha em meu caráter, um defeito a ser consertado, um pecado em praça pública, uma característica a ser extirpada do fundo da alma, uma ofensa à moral e aos bons costumes, um problema na sociedade, uma futilidade na cidade, um gesto obsceno no meio da civilização. O cara, com certeza, pensava diferente de mim. E eu, humildemente, pretendi ali expor meus argumentos pra elevar a “pretensão” a uma bela virtude em nossa cena de país emergente na conjuntura apocalíptica mundial, enfim, nesse nosso contexto de nação que tenta, dia a dia, botar por terra o que Nelson Rodrigues chamava de “complexo de vira-lata”.

Pensa comigo. Já sou pobre, fudido, lascado, desnutrido, subdesenvolvido, subordinado, subestimado, fedido, um coitado qualquer, feio, narigudo, sem pai, com mãe viúva, roqueiro no sertão, caipira no rock, jovem saudosista já cansado da vida, cara sem saída, poeta trágico, idiota, verme, iconoclasta, insignificante, racionalista na era pós-moderna, Macunaíma filosofando de sunga, professor da rede estadual, latino-americano, brasileiro de estatura mediana, no “Goiais”, no Senador Canedo... ainda queria que eu fosse mais um conformado, sem projetos? Aí seria muita desgraça prum indivíduo só, sô!

Desculpa. É que não consigo me conformar com a apologia distorcida da humildade, como se o humilde fosse o que se faz de coitado, aceita a própria miséria, passivo, resignado, abaixando a cabeça ao dizer “sim, sinhor”. Vi aqui que a palavra “humildade vem do latim humus que significa ‘filhos da terra’ e se refere à qualidade daqueles que não tentam se projetar sobre as outras pessoas, nem mostrar ser superior a elas”. Uma coisa é o cara não tentar se mostrar superior aos outros. Outra é, equivocadamente, achar que o sujeito humilde é o que aceita e se sujeita à situação. Então, mantenha a cordialidade e o respeito na idéia de humildade e arranque fora a “passividade” desse conceito!

Insisto: uma dosezinha de pretensão não faz mal. Só uma dosezinha. Aqui no meu dicionário diz: “pretensioso é quem possui pretensão ou vaidade”. E “pretensão é o resultado de pretender; exigência; presunção; excessiva vaidade”. Então fica a dica: pegue esse conceito, tire o excesso de prepotência e de vaidade fútil (mas deixe um pouquinho desse pecado capital, pra você conseguir levantar da cama) e mantenha a idéia de “resultado de pretender”. O filósofo Álvaro Vieira Pinto (abordando o conceito de nação enquanto projeto) falava do sentido literal da palavra “pretender”, como “pré-tender”, “tender antecipado” para um estado real, e não no sentido imaginário de pretender, na acepção de querer passar por aquilo que não é.

É isso. Assim, concluo: se eu não tivesse o mínimo de pretensão, pra manter minha cabeça em pé, sustentada por essas canelas fininhas... aí sim, estaria, realmente, fudido. Sei que nada sou sem a vontade de ser. Amém!






terça-feira, 4 de janeiro de 2011

HOJE: Festa "CULTURA 2011 - PRIORIDADE EM GOIÁS" !!!



HOJE!!!!!

Festa: "CULTURA 2011 - PRIORIDADE EM GOIÁS!"

Local: Metrópolis (Avenida 83, Nº 372, Setor Sul, Goiânia)


Discotecagem: Fabrício Nobre + Johnny Suxxx + Michael Night

Shows: Black Drawing Chalks + Diego de Moraes (solo)

Entrada Franca!


Lotação da casa: 200 pessoas.
Para entrada vc deve confirmar seu nome pelo email: eventos@monstrodiscos.com.br


domingo, 2 de janeiro de 2011

Por um ano novo de “grandes erros”!

[texto de hoje, no jornal Diário da Manhã:]



O “ano que vem” já veio. Então você está lendo no “ano novo” isto que escrevi no semana passada, no “ano velho”. Pela convenção do calendário cristão estamos, assim, separados no tempo: eu (nesta madrugada de 2010) e você (aí, já no “ano que vem”).

Bom. O esperado de todo cronista, hoje, é uma reflexão sobre o ano que se inicia. Tudo bem. Só que não quero dar tapinhas nas suas costas e dizer: “Tudo de bom neste ano... saúde e paz, o resto a gente corre atrás... felicidade, dinheiro, harmonia, sucesso etc e algo mais.”. Isso todo mundo já faz, correto? Logo, parece-me desnecessário encher esta coluna com letrinhas otimistas – embora, do fundo do meu coraçãozinho tosco, eu só deseje coisas boas aos meus queridos leitores, pacientes com meu pensamento atravessado, neste espaço dominical. Se não quero simplesmente circular em torno da expressão “feliz ano novo”; o que quero, então?

Desejo falar que desejo um ano de desejos (a frase ficou péssima? Sim. Mas a idéia é boa. “Desejo um ano de desejos”). Um ano de “vontade de vontade” (outra idéia infame; mas, até que dá pra salvar, parafraseando a idéia nietzschena de “vontade de potência”) de busca, de vida ávida por auto-superação. Oposto da felicidade sossegada da “poltrona do dia de domingo”. Um ano de luta por projetos, de lançar-se em apostas, de tentativas... e, enfim, de erros, de fracassos brilhantes.

Tentar é se sujeitar ao erro. Aí chego no assunto que queria: a virtude do erro. Foi tropeçando que aprendi a andar; caindo que aprendi a pedalar; quebrando a cara que o cara se tornou o cara. Logo, a vida, a arte, a ciência, a história... dependem do erro. Do erro que desafia o consenso unânime. Então erre! E, já que é pra errar, erre direito. Se agrade; se orgulhe. Erre com vontade. Erre grande. Não perca tempo com pequeninos errinhos inofensivos, pecadinhos pueris, tentativas medíocres. Se é pra errar, erre pra valer. Opa! Não! Peraí! Nenhuma ação criminosa, por favor! Também não tô te incentivando a trair a patroa ou o maridão! Pondere! Falo de tentativas não-convencionais, fora do senso comum, predispostas à possíveis insucessos. Não sou o Marquês de Sade, pelamôrdideus! Sou só um mísero cronistazinho de meia tijela cheio de boas intenções na alma dizendo: “Tente”,“Erre”... Erre aquele tipo de erro pra você, no futuro, olhar pra trás e dizer: “É... faria tudo de novo”. Erre pra ter o que contar pros seus netos (pros netos, pois pros filhos tem que dar o bom exemplo moral. Senão vira bagunça). Itamar Assumpção já cantava: “quem não vive tem medo da morte”, “fui me corrigir...errei”. É por aí. O grande erro mesmo é ficar aí afinando o coro contente e fascista dos hipócritas, corretos politicamente.

E se, no fim, a tentativa realmente se transmutar em equívoco, lembre-se da oração do grande Gandhi: “Senhor, se não me deres o êxito, dá-me forças para aprender com o fracasso”. Ele sabia que “o fracasso é a experiência que precede ao triunfo”. Gosto dessa frase e gosto mais ainda da idéia, sem auto-piedade, do Samuel Beckett: “Fracassa. Não importa. Tenta outra vez. Fracassa de novo. Fracassa melhor.”

Todos meus sucessos na vida são resultados dos meus melhores erros. “Eu devia ter errado mais” e, assim, acertado mais. Devia ter tentado mais; mas a tradição ocidental sempre podava minhas tentações. Talvez o momento seja esse. Expectativas se renovam com a simples mudança da folhinha do calendário. Ano novo, vida nova. Ai, eu não me seguro... “Feliz ano novo, meus queridos!”

sábado, 1 de janeiro de 2011

receita de ano novo (drummond)


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)


Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.


Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.



Carlos Drummond de Andrade