domingo, 17 de outubro de 2010

Fêssor!

Texto meu no Jornal Diário da Manhã:


Fêssor!

Uma vez, quando eu dava (ops! “vendia”) aula para as crianças do 1° ano do ensino fundamental (antiga alfabetização), em uma escolinha particular, ocorreu-me um fato tragicômico. Chegando na escola, de bicicleta de cestinha (que peguei emprestada com mamãe), um guri me disse:

- Fêssor! Pra quê que eu vou estudar? Se o senhor vem pra escola de bicicleta...

O menino, que tinha acabado de descer da Toyota Hilux preta quatro portas de vidro fumê, do papai produtor rural, vinha tirando onda com a minha cara, cheia de remela. “Pelo menos ele me chamou de senhor”, pensei. E fiquei ali sem respostas, coçando a cabeça e me lembrando do verso de Cazuza: “reparou na inocência cruel das criancinhas com seus comentários desconcertantes?”.

Na simples frase daquela criança havia um fato sociológico. Depois matutei sobre como inculcaram no menino um modelo de sociedade com seu conceito de “vencer na vida”. Meu aluno, no auge dos seus 8 anos, já julgava os outros por causa dos “bens materiais” e ironizava o sentido do estudo, expondo a situação de desvalorização dos professores.

Depois me vem gente querendo negar a tese clássica do velho Marx: “Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência”.

Mas, deixando essa discussão interminável de lado e voltando ao fato central dessa crônica... Há alguns meses citei esse causo no twitter para o senador Cristovam Buarque, que me retuitou. Daí alguém me disse que eu poderia aproveitar a situação para dar uma lição ambiental com meu exemplo “ecologicamente correto”. Logicamente não era minha intenção... mas minha condição...aliás, minha condução!

Rindo de mim mesmo, lembrei-me de Ataulfo Alves que em sua canção favorita (Meus tempos de criança) cantava a “saudade da professorinha que lhe ensinou o beabá”. Hoje canto “saudade da professorinha” também, com nostalgia dos dias em que eu era só aluno! Ah...“Eu era feliz e não sabia.”

Por falar em felicidade (ou não), a melhor notícia, pra mim, esse ano, foi minha nomeação no concurso da educação pelo Estado. Será que os alunos da escola pública me farão a mesma pergunta do menino lá ou será que daqui alguns anos conseguirei comprar minha Toyota Hilux preta? Talvez sim, né? Até lá talvez ela esteja mais barata, no ferro velho.

Mas, brincadeiras à parte, conversando com meu amigo Thiagão, outro concursado, que já começou a enfrentar a sala de aula, pensamos isso aqui: “estamos felizes por conseguirmos uma vaguinha no purgatório!” É... Acho que todo professor já vai direto pro céu, caso ele exista.

Na última 6ª feira foi comemorado o dia do professor. Então, deixo aqui minhas congratulações a todos os professores e professoras que, assim como eu, se reconhecem nas frases abaixo:

"Hoje, numa sala de aula, o verdadeiro quadro-negro é o salário do professor" (Max Nunes).

"O material escolar mais barato que temos na praça é o professor" (Jô Soares).

Mas, tirando o capital dessa história e, consequentemente, todo pessimismo que assombra os contracheques de meus colegas professores, ser professor é uma honra. Sem o professor não existe o médico, nem o juiz e nem o próprio professor. Assim seja, Aném.

E sobre meu aluno, não quero ser moralista com seu sarcasmo infantil. Até ri e contei pra Deus e o mundo a piada. O mais importante, pra mim, é... deixa eu ir ali tomar um café.


6 comentários:

Felipe Mendes Andrada disse...

Muito bom o post. Parabéns professor. Acho que você já dava aulas pra uma turma grande!

"Acho que todo professor já vai direto pro céu, caso ele exista."
Você tem razão. E essa devia ir para a lista de frases.

Boa sorte !

reis disse...

quem vai pro inferno vai de Hilux.

reis disse...

esqueci do parabéns!

Roqueto disse...

Grande Diegão!

Esses dias vivi episódio semelhante, mas diferente. Já há alguns meses tenho ido de bicicleta pra escola(tem sido ótimo). Esta semana um aluno me questionou:

-Professor, o senhor tem carro?
-Não
-Tem moto?
-Não
-Só tem um bicicleta
-Sim, o professor é pobre
-Se o senhor fosse pobre não estava dando aula aqui

Interessante essa conclusão dele né? Fiquei pensando sobre isso. Detalhe, lá é uma escola pública e ele um menino que nem de longe anda de Hilux.

Abração!

wigvan disse...

"Sem o professor não existe o médico, nem o juiz e nem o próprio professor."

Acho que colocada nesses termos, a figura do professor corre o risco de ser vista de forma mais patética.
Caso não tenha lido, sugiro que leia "O mestre ignorante", de Jacques Rancière. Desperta questionamentos muito interessantes acerca da importância do professor e dos seus métodos.
Abraço.

Professor Machado disse...

Grande Diegão, suas palavras nos auxilia na reflexão que devemos fazer no cotidiana da escola. Assim como você já fui vítima de algumas perguntas indesejaveis, mas como diz Almir Sater: Ando devagar por que já tive pressa e levo esse sorriso por que já.....

Abraços, Janailson Machado