domingo, 20 de fevereiro de 2011

O fradinho Henfil


O Fradim da patota do Pasquim.

Torcendo por melhorias pro mestre Millôr, me lembro de quando caíram em minhas mãos os quadrinhos do endiabrado católico Henfil – porta de entrada que me despertaria para o humor político brasileiro. Foi naquela mesma escola de freiras em que entrei em contato com alguns materiais “subversivos” (da melhor qualidade) como as crônicas do Stanislaw. Escola São Francisco de Assis, em Senador Canedo. Talvez ali estava a semente que me levaria ao rock, ou a espírito questionador da (contra)cultura, ao esforço contínuo de estar em permanente movimentação criativa. Talvez ali estava rascunhado meu espaço aqui nesta coluna. Talvez ali estava o empurrão pra produzir meus garranchos em forma de canção. Talvez ali já estava anunciado este diplominha na parede, em História. Talvez ali. Mas não pense em determinismo escolar – meus colegas de sala trilharam outros caminhos. Só sublinho o trieiro aberto, que está ligado à outras vias: da morte de papai ao meu estudo biblíco sistemático, na adolescência, em busca de respostas. Mamãe fazia salgados pra lá, então isso me permitia freqüentar aquele espaço, tão importante pra minha formação e, mais importante: fundamental enquanto estímulo para o que eu seria depois. Esse depois que ainda não chegou, pois, assim como o Raulzito, “eu só gostei do quadro que eu não pintei!”

Eu pintava o sete. Talento pra gandula, editava o jornalzinho, fazia um gibizinho em que os personagens eram meus coleguinhas mais as professoras e desenhava os cartazes da festa junina, além de estudar. Durante o recreio, quando eu não estava na minha função de “gandula” e nem observando as meninas com minha mente onanista (só observando pois, na época, eu tinha sido eleito “o cara mais feio da escola” – ou seja, eu ainda não era esse “galã” do rock nacional - hehehe), estava na função de “rato de biblioteca”.

No auge dos meus 12 anos, eu, freqüentador da biblioteca, (me lembro) quando chegou um grande estoque de livros antigos (doados – até hoje sou curioso para saber qual foi a alma que deixou sua herança bibliográfica para aquela escola!). No meio de tantas enciclopédias e livros clássicos, tinham vários exemplares encadernados do Fradim (a coisa mais “subversiva” que já vi na vida!). Uma vez relatei pro Otto Guerra (diretor da animação Wood & Stock) esse fato: “conheci o Fradim numa escola franciscana”. Ele cagou de rir. Um fato inusitado pra quem tem consciência do significado do Henfil na cultura brasileira. Depois daquele Fradim encadernado, eu nunca mais fui o mesmo, pois marcou minha forma de ver o mundo. Até hoje, procuro e coleciono tudo que posso sobre Henfil.

Henfil, com seu traço único, símbolo da luta contra a ditadura. Henfil, que não se considerava um artista, mas, sim, um “jornalista do traço”. Henfil, réu na questão das “patrulhas ideológicas” naquele momento de polarização ideológica, crucial na história do capitalismo brasileiro. Henfil, o hemofílico afirmador da vida, que sangrava as contradições do país em suas charges. Henfil, o gênio que, através de “inofensivas” cartas pra sua mãe, dava recados e tomava notas sobre o que o ocorria no país do futebol. Henfil, que defendia um humor enquanto arma política: “não só pra fazer rir, mas pra fazer pensar”. Henfil, que dizia, através do personagem Baixim: “Top Top Top!”, expressão que seria usada numa canção dos Mutantes. Henfil, que enterrou Elis Regina no “cemitério dos mortos vivos” e, depois, se tornaria uma espécie de guru pra ela, que veria nele um caso raro de sinceridade. Tanto que, posteriormente, a equilibrista Elis cantaria o sonho da “volta do irmão do Henfil”, registrado na canção de Bosco e Blanc. O exilado passava a ter cara: “era o sociólogo mineiro Betinho, filho da dona Maria, irmão do Henfil”. Recomendo o emocionante documentário

Três Irmãos de Sangue. Esse filme evidencia que o humor, além de uma arma política, também é uma questão de sobrevivência. Enfim, Henfil, o fradrinho que encarnava o bem e o mal dos seus personagens (a resignação católica do Cumprido e o sarcasmo escatológico do Baixim) e sabia que...


Se não houver frutos, valeu a beleza das flores; se não houver flores, valeu a sombra das folhas; se não houver folhas, valeu a intenção da semente”.



(publicado no jornal Diário da Manhã)


4 comentários:

Eduardo Carli disse...

ôôô dieguito!

mais uma vez encontro palavras inspiradas e inspiradoras saindo da sua pena. :)

tb sou fissurado em henfil e no fradim. anos atrás um tio meu que já foi hippie e ayahuasqueiro me presenteou uma coleçãozinha de fradins, umas 12 edições, que devorei, casquei e pirei. tanto que comecei a emprestar a torto e a direito para amigos que... nunca me devolveram os danados. um dia ainda saio por aí no resgate das pérolas!

dos livros, só li o "henfil na china", um puta dum "livro-reportagem" que faz maravilhas através do "jornalismo humorístico de esquerda". recomendo!

ah, e qual não foi minha surpresa ao trombar, dia desses, com vários "tributos" ao cara lá no 2o andar do museu zoroastro artiaga, na pça cívica... viva goiânia! :)

Carlos Brandão Três disse...

Don, bacana essa sua viagem sobre Henfil, que de vez em quando tinha umas recaídas de esquerda dona do mundo e saía condenando quem não pensava como ele (Elis é um caso.. tem outros..).
Mas o legal do Henfil, que vc deve conhecer, é seu irmão músico, tbem hemofílico como ele e Betinho. O violonista irmão do Henfil tem 3 CDs gravados e lançados pela Caju Music, nos anos 90.
Segundo Betinho, esse irmão, Francisco Mário, sempre teve dificuldades imensas com letra de música. Por isso, pequeno, já falava: "eu gosto de caldo de música". Suas músicas (os caldos, sem letras), são lindas. Precisa ouvir.
Abraço do fã... rsrs
Ah, fiquei sabendo agora da morte da mãe do Gabriel.. dá um abraço nele, por mim.

Carlos Brandão Três disse...

Don, bacana essa sua viagem sobre Henfil, que de vez em quando tinha umas recaídas de esquerda dona do mundo e saía condenando quem não pensava como ele (Elis é um caso.. tem outros..).
Mas o legal do Henfil, que vc deve conhecer, é seu irmão músico, tbem hemofílico como ele e Betinho. O violonista irmão do Henfil tem 3 CDs gravados e lançados pela Caju Music, nos anos 90.
Segundo Betinho, esse irmão, Francisco Mário, sempre teve dificuldades imensas com letra de música. Por isso, pequeno, já falava: "eu gosto de caldo de música". Suas músicas (os caldos, sem letras), são lindas. Precisa ouvir.
Abraço do fã... rsrs
Ah, fiquei sabendo agora da morte da mãe do Gabriel.. dá um abraço nele, por mim.

Tire o Dedo do Meu Blog disse...

Don, bacana essa sua viagem sobre Henfil, que de vez em quando tinha umas recaídas de esquerda dona do mundo e saía condenando quem não pensava como ele (Elis é um caso.. tem outros..).
Mas o legal do Henfil, que vc deve conhecer, é seu irmão músico, tbem hemofílico como ele e Betinho. O violonista irmão do Henfil tem 3 CDs gravados e lançados pela Caju Music, nos anos 90.
Segundo Betinho, esse irmão, Francisco Mário, sempre teve dificuldades imensas com letra de música. Por isso, pequeno, já falava: "eu gosto de caldo de música". Suas músicas (os caldos, sem letras), são lindas. Precisa ouvir.
Abraço do fã... rsrs
Ah, fiquei sabendo agora da morte da mãe do Gabriel.. dá um abraço nele, por mim.