domingo, 20 de fevereiro de 2011

O fradinho Henfil


O Fradim da patota do Pasquim.

Torcendo por melhorias pro mestre Millôr, me lembro de quando caíram em minhas mãos os quadrinhos do endiabrado católico Henfil – porta de entrada que me despertaria para o humor político brasileiro. Foi naquela mesma escola de freiras em que entrei em contato com alguns materiais “subversivos” (da melhor qualidade) como as crônicas do Stanislaw. Escola São Francisco de Assis, em Senador Canedo. Talvez ali estava a semente que me levaria ao rock, ou a espírito questionador da (contra)cultura, ao esforço contínuo de estar em permanente movimentação criativa. Talvez ali estava rascunhado meu espaço aqui nesta coluna. Talvez ali estava o empurrão pra produzir meus garranchos em forma de canção. Talvez ali já estava anunciado este diplominha na parede, em História. Talvez ali. Mas não pense em determinismo escolar – meus colegas de sala trilharam outros caminhos. Só sublinho o trieiro aberto, que está ligado à outras vias: da morte de papai ao meu estudo biblíco sistemático, na adolescência, em busca de respostas. Mamãe fazia salgados pra lá, então isso me permitia freqüentar aquele espaço, tão importante pra minha formação e, mais importante: fundamental enquanto estímulo para o que eu seria depois. Esse depois que ainda não chegou, pois, assim como o Raulzito, “eu só gostei do quadro que eu não pintei!”

Eu pintava o sete. Talento pra gandula, editava o jornalzinho, fazia um gibizinho em que os personagens eram meus coleguinhas mais as professoras e desenhava os cartazes da festa junina, além de estudar. Durante o recreio, quando eu não estava na minha função de “gandula” e nem observando as meninas com minha mente onanista (só observando pois, na época, eu tinha sido eleito “o cara mais feio da escola” – ou seja, eu ainda não era esse “galã” do rock nacional - hehehe), estava na função de “rato de biblioteca”.

No auge dos meus 12 anos, eu, freqüentador da biblioteca, (me lembro) quando chegou um grande estoque de livros antigos (doados – até hoje sou curioso para saber qual foi a alma que deixou sua herança bibliográfica para aquela escola!). No meio de tantas enciclopédias e livros clássicos, tinham vários exemplares encadernados do Fradim (a coisa mais “subversiva” que já vi na vida!). Uma vez relatei pro Otto Guerra (diretor da animação Wood & Stock) esse fato: “conheci o Fradim numa escola franciscana”. Ele cagou de rir. Um fato inusitado pra quem tem consciência do significado do Henfil na cultura brasileira. Depois daquele Fradim encadernado, eu nunca mais fui o mesmo, pois marcou minha forma de ver o mundo. Até hoje, procuro e coleciono tudo que posso sobre Henfil.

Henfil, com seu traço único, símbolo da luta contra a ditadura. Henfil, que não se considerava um artista, mas, sim, um “jornalista do traço”. Henfil, réu na questão das “patrulhas ideológicas” naquele momento de polarização ideológica, crucial na história do capitalismo brasileiro. Henfil, o hemofílico afirmador da vida, que sangrava as contradições do país em suas charges. Henfil, o gênio que, através de “inofensivas” cartas pra sua mãe, dava recados e tomava notas sobre o que o ocorria no país do futebol. Henfil, que defendia um humor enquanto arma política: “não só pra fazer rir, mas pra fazer pensar”. Henfil, que dizia, através do personagem Baixim: “Top Top Top!”, expressão que seria usada numa canção dos Mutantes. Henfil, que enterrou Elis Regina no “cemitério dos mortos vivos” e, depois, se tornaria uma espécie de guru pra ela, que veria nele um caso raro de sinceridade. Tanto que, posteriormente, a equilibrista Elis cantaria o sonho da “volta do irmão do Henfil”, registrado na canção de Bosco e Blanc. O exilado passava a ter cara: “era o sociólogo mineiro Betinho, filho da dona Maria, irmão do Henfil”. Recomendo o emocionante documentário

Três Irmãos de Sangue. Esse filme evidencia que o humor, além de uma arma política, também é uma questão de sobrevivência. Enfim, Henfil, o fradrinho que encarnava o bem e o mal dos seus personagens (a resignação católica do Cumprido e o sarcasmo escatológico do Baixim) e sabia que...


“Se não houver frutos, valeu a beleza das flores; se não houver flores, valeu a sombra das folhas; se não houver folhas, valeu a intenção da semente”.



(publicado no jornal Diário da Manhã)


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

conversa de botequim com Waldi & Redson

recado para os queridos amigos de uberlândia:

o que é o ?
@ responde nesse link: http://is.gs/9zc ! ;)


a viagem do waldi à uberlândia
- para reencontrar seu parceiro, redson -
de quebra
também tem o sentido de continuar as gravações,
coordenadas pelo grande @elmoita (guitarrista
dos incríveis: porcas borboletas).

dessa vez,
será a vez
do trampo, no estúdio, do baixista joão dinheiro
e do baterista barrabás
- comparsas da dupla,
que prepara sua "trêta timbrêra".

cenas dos próximos capítulos
dessa novela, nesse canal: http://twitter.com/waldieredson


Waldi gravando nos idos de dezembro de 2010

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

um "índio" do Canedo na Índia!

Surpresa do dia:

Chego em casa
e encontro num site de música da Índia...







sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Rumo à Cuiabá: aniversário da CASA FORA DO EIXO!

pé na estrada,
eu
mais alguns companheiros do Pó de Ser,
rumo à minha querida terrinha natal: Cuiabá!
pra quê?
pra jogar confetes na festança de aniversário
da CASA FORA DO EIXO!
lindo motivo de comemoração!

legal receber o convite pra cantar "happy birthday" lá com eles,
num show que promete ser um misto de
re-invenção-experimento-laboratório-aventura,
em que farei uma "suruba musical" junto com alguns convidados!
jam? Já! Jah!

a intenção é não perder o tesão!

fiquei sabendo que a decoração da casa tá ficando bonitona, viu?
saca o flyer:
o som sindicalista não pôde assinar a ata, dessa vez,
mas, vou lá representando essa "parte de nós", pois
como canto (e defendo) sempre: "o show não pode parar"...

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

uns sons nota 10 de 2010...

O Higor,
me convidou pra sua enquete
sobre "os melhores discos de 2010".

Enviei um texto, com
algumas impressões
sobre o que ouvi
no ano que foi,
publicado no dia 27 de janeiro.

Segue o link aí:





"bonita a palavra 'perseguir' " (pretobrás)



















"preste atenção nas coisas que não chamam atenção" (mafaro)

















“lauro roberto é genial” (márcio jr.)





















"puro por acaso e nada mais" (luiz tatit).























"sempre tem gente pra chamar de nós
sejam milhares, centenas ou dois" (tatit/jeneci).























Eu, Lanny Gordin e Ksnirbaks
no Carnaval-2010, em Piri:

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

CUIDADO - pó de ser

Dia desses o Fernando Cipó (baixista do Pó de Ser) postou aí um vídeo nosso,
montado por Clever Cardoso (Granada Filmes) :

dá pra sacar um pouco do "CUIDADO" que temos com a música: composição e arranjo.
Depois escute, com cuidado e sem moderação, esta canção aqui: www.myspace.com/podeser -CUIDADO!!!
Cuidado este que nos rendeu estar com a nossa De Repente, lançada na coletânea Radio Grafia, na lista de melhores músicas de 2010 do blog Goiânia Rock News .
Cuidado da família Pó de Ser,
que será bem representado pelo "design de canções" Kleuber Garcêz
no elenco do Goiânia Canto de Ouro desta semana (dias 4,5 e 6).
Quem puder ir... VÁ!

"NÃO FUJA DA RAIA,
CAIA DE CABEÇA, CORPO, CORAÇÃO!"


Depois eu volto nesse assunto do "cuidado", com cuidado...

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

AMIGO's (Gloom & Sindicato) no Ibirapuera

versão de AMIGO
abençoada por "Jah"!


vídeo postado por Clever Cardoso

domingo, 30 de janeiro de 2011

Sérgio Sampaio para os fãs


“Tenho que cantar bonito pra ninguém botar defeito/ Tenho que cantar no jeito pra ninguém se arrepender ... de ter vindo/ Tenho que me esmerar/ pra nem pensar em matar/ o ouvido / de quem veio comprovar / se estou mesmo no lugar/ devido. / Preciso corresponder ao carinho de quem gosta de mim,/ gente que me acompanhou / e com razão se queixou / que eu sumi / daqui, daqui. / Quero então mostrar algumas das canções que eu fiz distante / longe da cidade, cônjuge, / que agora é como a cama/ da amante. / Quero enfim “tocar logar” (?),/ dizer o verso banal/ e lindo./ E tentar surpreender/ quem só veio para ouvir/ o antigo./ Cantar bem, retribuir/ o carinho de quem gosta de mim,/ gente que me acompanhou / e com razão se queixou / que eu sumi / daqui, daqui/ Aconteceu um novo amor/ Não podia acontecer/ Não era hora de amar/ Agora o que é que eu vou fazer?”

Os versos acima são de uma bela canção do compositor Sérgio Sampaio – capixaba, que veio da mesma terra do “rei” Roberto Carlos, pra ser um gênio “marginal” (à margem) da música brasileira. Não sei se os digitei corretamente. Não sei o nome desta canção. Só sei que é maravilhosa: uma linda melodia e uma poética à flor da pele. Só sei que esses versos chegaram através do milagre da internet. Algum fã comenta que essa musica se chama "Cantar Bonito". É um registro da gratidão do artista para com seus fãs. Ela não foi gravada em nenhum disco de Sérgio, permaneceu inédita. Seus fãs só podem conhecê-la graças a mágica do mundo virtual. Uma imagem do compositor, transpirando vida, em seus últimos anos aqui na Terra. Para entender o que digo: procure no youtube um vídeo com o mesmo título deste meu texto de hoje.

Ali, naquele vídeo, Sérgio Sampaio, “poeta do riso e da dor”, cantava para uns 3 amigos bêbados, sua verdade, “cruel” verdade. “Pérolas aos porcos?” Não! Pérolas para aqueles seres humanos, ouvindo a poesia real, sem meio termo. Sérgio sabia que “um livro de poesia na gaveta não adianta nada, lugar poesia é na calçada, lugar de quadro é na esposição”. Na informalidade do momento, o som e a vida de Sérgio acontecia, com sofisticação e simplicidade. Sérgio, biográfico e universal, fazia seu show para aquelas pessoas que dedicavam atenção à sua música, que o admiravam, apesar dele ter sido vomitado das paradas de sucesso. Mesmo sem microfone, sem os holofotes, sem maquiagem, sem a presença da imprensa, um lindo show acontecia.

Não sou religioso, mas acho que o show é um momento sagrado. Já toquei em várias ocasiões, de teatros cheios à rodas para poucas pessoas. Não importa se estou no Ibirapuera ou em uma escola estadual: o respeito para com o publico, com essa “gente que me acompanha”, é fundamental, sempre. Depois de ouvir a “Canção Bonita” de Sérgio Sampaio, o que eu tenho a me dizer? “Diego, continue tocando pra 1 pessoa, como se estivesse tocando pra 1 milhão”. Seja pra agradar ou pra agredir. Seja: sempre você! O show é um momento sagrado. “Preciso corresponder ao carinho de quem gosta de mim”.


(publicado no jornal Diário da Manhã)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

a caminho de sampa: PARA PIRAR NO IBIRAPUERA!!!


Rota:

1 - Quinta: "pit-stop" em Uberlândia:


2 - Sexta: pocket show no Espaço Soma, em Sampa,
durante o tradicional happy hour da casa

(CONCORRA A INGRESSOS PARA NOSSO SHOW NO IBIRAPUERA
NO TWITTER DA MAISSOMA http://twitter.com/maissoma ) !!!!


3 - Sábado: "dia de princesa" no Ibirapuera!

Sobre o show "Gloom + Diego e O Sindicato":



quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

TOCAREMOS NA 1ª NOITE FORA DO EIXO UBERLÂNDIA DE 2011!



amanhã, a caminho de sampa...
parada mais que obrigatória nessa terrinha do meu coração:
uberlândia!




terça-feira, 25 de janeiro de 2011

domingo, 23 de janeiro de 2011

Ouvindo o BaRnabé na estrada



No próximo sábado tocarei com a minha banda ( Diego e O Sindicato: www.myspace.com/diegodemoraes ) no Auditório Ibirapuera, em um show que faremos juntamente com a banda Gloom ( www.myspace.com/bandagloom ), apresentando um pouco da nova música produzida em Goiás. Além de nós, na sexta, a banda Violins ( http://www.violins.com.br/) também levará o som deles, com um show comemorativo dos seus 10 anos de carreira. São os goianos, de “fora do eixo” (no meu caso, “dentro do eixo Anhanguera") para o “Sul Maravilha” (termo usado, com ironia, pelo cartunista mineiro Henfil), mostrando que aqui não é apenas um celeiro de duplas sertanejas, mas é um espaço geográfico marcado pela diversidade de estilos. Para informações da aventura: é só ir acompanhando os twitters das bandas. Enquanto isso, ficamos na expectativa, planejando, ensaiando e com aquele friozinho bão na barriga pré-show.

Diante dessa oportunidade, lembrei da minha primeira viagem à São Paulo, no fim de 2007, quando fui selecionado pra tocar no Festival No Capricho. A classificação neste evento nos possibilitou retornar à capital paulista no começo de 2008, pra gravação da música Amigo, nos estúdios da Trama. Fomos num carro dirigido pelo nosso então baterista: Rogério Pafa (figura já lendária na história do rock em Goiás). Lembro-me de cada integrante, durante a gravação na Trama, contribuindo com cada detalhe que compôs aquele fonograma, que hoje vemos como um filho que nos trouxe muita alegria – “parte de nós”. Esta música, circulando pelo mundo virtual, foi parar no mês de dezembro de 2010 numa lista global do jornal inglês The Guardian, inclusive. Não imaginava que esta canção, escrita no meu quarto em Senador Canedo, fosse ter tal repercussão, graças à “bendita internet”.

Após a gravação, voltando pra Goiás, paramos em Piracicaba pra almoçar. Vi numa banca de revistas um cd de causos e músicas do humorista Barnabé. Na hora comprei de lembrança pra mamãe, que sempre comentava sobre o disco de piadas do Barnabé, que ela escutava na casa da tia Catarina, durante a juventude. Não pensei duas vezes e comprei o cd. Barriga cheia: pé na estrada. No caminho entrego o cd pro Pafa colocar no som do carro. De repente, ao adentrarmos o “país dos baurets”, começa a sequencia memoravel de causos. Com seu tom de voz tímido e desconfiado, Barnabé contava suas histórias e cantava suas músicas. Rachamos de rir. O Pafa precisou encostar o carro; pois parecia que íamos morrer de tanto rir. Fiquei até sem ar, com a barriga doendo de tanta gargalhada.

"Depois de comer um bom virado/ eu fui dormir e tive um sonho lindo/ sonhei que tava acordado/ acordei pra ver e tava dormindo” – eram os versos da música O Sonho do Barnabé. Com a pureza de um humor simples e pitadas de malícia, o humorista conseguia fazer sua platéia rir, sem um palavrão, sem apelação, apenas na força do próprio causo. Barnabé era o nome artístico de João Ferreira de Mela, que nasceu em Botelhos (MG). Com 25 anos foi para São Paulo, onde gravou seu primeiro disco de piadas, em 1964. Ele ainda gravaria mais 4 discos até a sua morte, aos 28 anos, em 1968. Depois seu irmão daria continuidade ao emblemático personagem Barnabé.

Na próxima quinta pego a estrada novamente, com meus companheiros de banda. Já vou colocar os “Barnabés” (o humorista e o dodecafônico da “vanguarda paulista”) no meu mp3, pra viajar. Viajar, como diz meu amigo Danislau, “tanto no sentido geográfico-espacial, quanto no sentido filosófico-transcendental”. A vida é uma viagem!

[publicado no jornal Diário da Manhã]


terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Músicas + prosa na Rádio 730

Na semana passada,
bati um papo com Amaury Garcia,
no programa "Estúdio 730",
na rádio 730 AM.

Eles disponibilizam essa participação lá no site deles, ó:

http://www.portal730.com.br/noticias/musica/17353-diego-de-moraes-e-o-sindicato-e-destaque-no-estudio-730.html

---> "Exatamente" hehehe

domingo, 16 de janeiro de 2011

um nirvana em tempos de Wikileaks



[publicado no jornal Diário da Manhã ]


Sexta feira: 14 de janeiro; minha crônica da semana: concluída. Depois de uma boa, e cansativa, semana corrida – planejamento, releituras, livros sublinhados, entrevistas, cordas arrebentadas no violão, dias e madrugadas de estudo e produção, boas e péssimas notícias – e de uma enchente de tragédias estampadas nos jornais. Enfim, conseguia me organizar e terminar o texto semanal pra este espaço, que sempre me esforço pra ser bem gostoso (ou seja, pra que compactue com a imagem aí do lado, da Geléia do Pampinha). O texto estava pronto pra enviar à diagramação do jornal. Antes de clicar na opção “enviar” do email; dou uma espiada no twitter para ver os assuntos que meus “followings” fofocavam. De repente, quando me dou por mim, estou no site de um tal de Dodô Azevedo ( http://www.dodoazevedo.com ) que noticiava: “VAZOU: Lendária mixagem original de In Utero, do Nirvana, já circula na rede”. O quê? Tiro a remela dos olhos pra ler melhor. Imediatamente, boto meu pc pra baixar a pérola. Arquivo o texto que eu tinha feito. E recomeço. Agora sim, podemos iniciar a conversa de hoje.


“Angústia adolescente pagou muito bem/ Agora estou entediado e velho” – os dois primeiros versos daquele disco previsto para ser o sucessor do sucesso que “cheirava espírito adolescente”: Nevermind. Situando os versos no contexto... Os olhos de cifrão dos engravatados da gravadora Geffen viam uma multidão ensandecida dizendo: “agora entretenha-nos!”. O ano era 1993. Nirvana, banda que reinava entre gregos e troianos – era pop, era punk, era palhaça, era depressiva, era um pinto na câmera, era poesia – era a síntese de uma “Era”. A banda tinha a obrigação de apresentar para a indústria cultural um novo produto que agradasse público, crítica e, principalmente, os bolsos dos empresários da música veiculada via MTV. Porém, em vez de seguir a cartilha do disco anterior, Kurt Cobain tinha convidado seu ídolo Steve Albini – produtor que ia na contramão da sonoridade das FM’s, por conta das suas famosas gravações sujas e analógicas (“famosas” no submundo). Quando apresentam a mixagem final, a gravadora gosta das canções e detesta a gravação. Decide “limpar”, tornar mais “vendável” aquele som.

No texto onde encontrei o bendito link, Dodô Azevedo define bem a situação de 1993 (em contraposição com a atual): “O mundo underground, na época, estava esperando pelo encontro de Cobain e Albini como uma partida de futebol com Pelé e Di Steffano. A mixagem original de Albini nunca veio à tona. Permaneceu um mistério. Até hoje. Em tempo de Wikileaks, vazou a mixagem de Albini.” Dodô conjectura que se fosse hoje o In Utero de Albini/Cobain teria sido lançado e que ferramentas como o myspace teriam facilitado a vida de Cobain. Ficam as hipóteses, o som e a lenda.

Lembro-me quando ouvi o In Utero pela primeira vez, numa fitinha K7 emprestada por Erickitos, um dos meus melhores amigos – pai do meu afilhado John e criador de belas melodias aqui nesse solo provinciano de Senador Canedo. No começo, eu escutava a música Serve the Servents e achava engraçada, sem saber do significado irônico daquela faixa abrindo aquele disco pesado, desesperado e repleto de sarcasmo. Primeiro ouvi as canções, depois li a legenda e, hoje, chega a gravação “autêntica”.

Bom. Agora que o número de caracteres está acabando e já sugeri o link que trouxe felicidade e nostalgia à minha sexta... posso finalizar o papo e fazer uma cópia desse cd pro meu amigo Erick.

“Think I'm just happy!”




quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

"Os sindicalistas do rock" - matéria no O POPULAR

Hoje no caderno Magazine, do jornal O Popular, saiu uma bela narrativa de @carollalmeida sobre a nossa saga:
Abaixo a matéria na íntegra,
seguida da entrevista que Caroll fez comigo:


OS SINDICALISTAS DO ROCK

por: Caroll Almeida


BANDA DIEGO E O SINDICATO LANÇA O PRIMEIRO DISCO, PARTE DE NÓS, E MOSTRA POR QUE MERECEU TER UMA MÚSICA INCLUÍDA EM LISTA DO JORNAL INGLÊS THE GUARDIAN.


No começo, ele se apresentava apenas com um violão e a irmã na bateria quebrando o galho. No Tacabocanocd, festival realizado pela Fósforo Cultural, Diego de Moraes abocanhou o prêmio de melhor performance e foi para o estúdio gravar. Com o EP Reticências, em 2007, a ideia inicial da banda Diego e o Sindicato surgiu, o grupo caiu na estrada, passou por vários festivais independentes importantes no País e viu suas músicas rodarem pela abençoada internet.

E foi numa dessas, por meio do Music Alliance Pact - um projeto do qual participam 35 blogs especializados de várias partes do mundo -, que Amigo, uma das primeiras composições de Diego, foi parar numa lista de melhores músicas divulgada em dezembro no blog do jornal The Guardian. Nada mal para uma banda que só agora lança o primeiro disco, Parte de Nós. Nada mal para uma banda que começou meio sem querer começar.

Diego não chamou os amigos para fazer barulho na garagem de casa, em Senador Canedo. A banda - formada por Danilo Teles (baixo), Eduardo Kolody (guitarra e sintetizador), Gabriel Cruz (percussão e efeitos) e Hudson Rabelo (bateria) - surgiu por necessidade, no estúdio. E vieram os shows.

Mas, como Diego gosta de definir, "o show era um "happening" e não havia ideia de banda ainda. A cada apresentação o grupo ganhava um nome diferente: já foi Diego e a Classe Operária, Diego de Moraes e Os Imorais, Diego e Os Fritos da Terra, Diego e a KBG... Integrantes entraram, outros saíram (como o baixista Aderson Maia, hoje uma espécie de membro honorário), e a denominação definitiva só veio mesmo quando a coisa começou a ficar séria, no final de 2007, quando, após ganhar o Festival Capricho, em São Paulo, gravaram no Estúdio Trama a faixa Amigo e, por votação popular, tocaram no Goiânia Noise Festival pela primeira vez.

A seriedade agora é evidente. Não aquela seriedade que barra a leveza, o descomprometimento saudável, mas aquela aliada ao profissionalismo. Basta ouvir o disco para saber que a banda, hoje tida como a nova promessa da cena independente goiana, está pronta, lapidada.

Parte de Nós impressiona de cara. As ilustrações de Thiago Xavier fazem qualquer um lembrar o quão bom é folhear o encarte de um disco, prática tão rara em dias de download. Complemento certo para as letras cheias de jogos de palavras do Diego e arranjos do Sindicato, a mistura nada indigesta de suingue, samba, pancadaria, riffs de guitarra, acordes de viola, pandeiro, trovadorismo e um quê de brega mais que bem-vindo.

Com 12 faixas, Parte de Nós traz canções que alavancaram o nome da banda como Amigo, Animal Irracional, Sobrevivo e Todo Dia. Na segunda metade do CD, a genial Pelas Barbas do Profeta, 69, Seu e Quase Nada, provavelmente a melhor faixa. No dia 29, a banda se apresenta no Ibirapuera, em São Paulo, e no dia 3 de março, no Itaú Cultural, também na capital paulista.


Disco:Parte de Nós

Artista:Diego e o Sindicato

Distribuição:Fósforo Cultural

Preço:R$ 10

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Entrevista/Diego de Moraes

"Sou um péssimo cantor’"


Em entrevista ao POPULAR, Diego de Moraes falou sobre a banda, seus outros projetos e a vontade revelada de um dia parar de cantar e só fazer o que mais gosta: compor. Confira:




A banda lançou um disco com composições que muita gente já conhecia. É mais fácil colocar um disco no mercado com músicas que já são aceitas pelo público?

Várias músicas já eram conhecidas dos shows, mas ainda não tinham sido registradas num fonograma. Muitas pessoas só estão conhecendo essas músicas e a banda agora que o CD caiu na rede. Não penso que este tenha sido o caminho mais fácil, não foi pensado intencionalmente. Foi uma situação que aconteceu.

Com tantas composições, por que só agora a banda gravou um CD?

Antes não tivemos possibilidade, financeira e não de inspiração. Por isso, divulgávamos com o EP Reticências, que deu origem à própria banda. Só foi possível começar a gravação em 2009, graças à aprovação na lei municipal (de cultura).

Fora a banda Diego e o Sindicato, você já teve a Filhos de Maria e agora também tem a Pó de Ser e uma dupla sertaneja, o Waldi & Redson. Por que tanta coisa ao mesmo tempo?

É necessário buscar outras possibilidades pra dar vazão ao que quero e gosto de fazer. Cada banda é um universo, fruto do universo que são as pessoas que compõem aquela banda. Gosto disso: de universos em relação. Pó de Ser nasceu em 2009, em um primeiro momento, para tocar as parcerias musicais que eu já vinha fazendo com o Kleuber Garcêz, desde o fim de 2007. O Kleuber compunha para a banda dele, Minadágua, mas queria compor outras coisas, com outras propostas. Assim como eu também queria ampliar minhas possibilidades, como compositor. Então, novamente um encontro e veio a ideia do Pó de Ser.

E por que uma dupla sertaneja?

Waldi & Redson é uma dupla sertaneja que criei com o Chelo (atual baixista do Porcas Borboletas). A gente é muito fã do sertanejo real. Pra gente um grande encontro na música seria um papo do Tião Carreiro com o Johnny Cash, dois timbres graves na voz e chateação no coração. Waldi & Redson também tem influência das histórias de bangue-bangue do Leo Canhoto e Robertinho. Fizemos a dupla porque é o que a gente gosta de verdade, é a nossa raiz, o que escutamos no ranchinho dos nossos avós. Sem falar que hoje as duplas sertanejas não fazem sertanejo, fazem pop-rock. O Chelo costuma dizer que Waldi & Redson é a coisa mais punk que ele fez na vida. Tem gente que acha graça, mas é dor fruto da desgraça das nossas vidas. Vamos começar a gravação do disco Minha Vida Empanzinada.

E quando chegar a hora de dar prioridade para uma apenas? Como vai ser?

Minha prioridade é a arte. É estar em permanente movimentação. Sou professor do Estado, dou aula na cadeia pública de Senador Canedo, o que faço com orgulho, estou terminando o mestrado em História e tenho projetos de poesia e música. Faço muita coisa, não sou "especialista" em nada. Na realidade, a coisa mais importante na minha vida é compor. Eu queria parar de cantar. Sou um péssimo cantor. Mas preciso continuar, pois não encontrei ninguém para cantar minhas músicas... E preciso do show pra expor pro público o que escrevi aqui no meu quarto. Não me considero "músico", sou só um discípulo do verso dos Titãs: "eu não sei fazer música, mas eu faço".

Você não considera nenhum um projeto paralelo?

Ultimamente venho detestando o termo "projeto paralelo". Pra mim não tem isso. Tudo é projeto central. No momento que ensaio, ou escrevo, dedico minhas forças àquilo. E tudo é importante.




Incomoda quando dizem que você é o Raul Seixas do Cerrado?

Hoje não me incomoda mais. Uma vez o Pablo Kossa (produtor cultural e jornalista) me disse algo muito inteligente: "Diego, quando alguém fala sobre você, a pessoa está falando mais dela mesma, do universo dela, do ponto de vista dela, do que ela vê em você."

Mas há uma influência que não se pode negar.

Não nego que muitas canções de Parte de Nós, que escrevi com menos de 20 anos, trazem a marca da influência do Raulzito, que é o grande mito do rock brasileiro, que foi um cara que fez muito minha cabeça, junto com a moçada do rock brazuca dos anos 80 e 90, e ele foi importante quando resolvi sair da igreja, por ter lido a Bíblia inteira por duas vezes. Amo o Raul e odeio o tradicionalismo dos "raul-seixistas" que não vivenciam a mensagem da Metamorfose Ambulante. Agora, uma música como 69 já traz outras influências, de Mutantes, Pink Floyd e no fim ainda cito os Stooges. Ainda em 69 digo "eu quero o novo de novo e o Tonico e Tinoco". E termina com uma pancadaria que nem sei o que é aquilo.

Como é o seu processo de composição?

Cada música surge de uma forma. Tem umas que pego o violão e sai de uma vez. Outras, como Amigo, por exemplo, demoram mais. Amigo eu tinha o riff no violão, mas não conseguia colocar letra. Depois de um tempo, vieram os primeiros versos. Depois, veio a ideia de em cada parte da música acrescentar uma frase e um acorde diferente, para representar o conflito do eu lírico que quer ser original, mas que se sente só "mais um", "uma parte de nós". No começo, era sempre muito espontâneo. Hoje ainda acontece isso, músicas que simplesmente "acontecem". Mas estou gostando cada vez mais da ideia do compositor como um arquiteto da palavra e do som. Tenho me interessado cada vez mais na ideia da canção como construção, tijolo por tijolo. Acho que tem a ver com o processo de compor com parceiros. É muito massa compor em parceria, um brigando com o outro, intervindo, sugerindo. Um filho coletivo. Quero fazer cada vez mais e cada vez mais em parceria.