19h – Feira do Livro Mostra de Poesia Falada Comício Poético Lançamento da Antologia da Chuva de Poesia Entrega da premiação aos 10 primeiros colecionadores da Chuva de Poesia Lançamento do livro do escritor Brasigóis Felício – Filhos do Tempo Sessão de Autógrafos Varal de Troca Poética Show do Diego de Moraes e Sindicato Rua 23 - Centro
Fortaleza é uma metáfora do Brasil, pois os dois “brasis” convivem no mesmo espaço. Uma cidade maravilhosa, onde convive o luxo e o lixo na mesma esquina. Por isso pedi pra colocar aí em cima esse poema visual de Augusto de Campos (publicado em 1965, ou seja, após aquilo que Décio Pignatari chamou de “salto participante” da Poesia Concreta, de 61 – tempo de efervescência política em que até os “concretos” foram instigados à pensar a “realidade concreta” nacional).
.No mês passado também fui levado a pensar na “realidade brasileira”, pois estive em Fortaleza pra tocar com minha banda. Foi a 1ª vez que fui ao Nordeste, a 1ª que comi camarão (pago com a “patativa” – moeda social usada pelo festival Feira da Música) e o 1º show da atual formação de O Sindicato, com o Hudz na bateria – por coincidência ele estreou, nessa nossa banda, em sua cidade natal. Voltei “quebrado” de Canoa Quebrada (onde ouvi um reggae, como na linda canção do Cidadão Instigado), indo do “pé na cova” (chulé) à “vida nova” – rs. Um belo lugar para recomeçar, dar outro passo, continuar a caminhada.
Sempre digo que não vivo “de” música, mas vivo “a” música. E ela tem me proporcionado conhecer lugares e pessoas. Assim, conheço, de dentro (enquanto expectador-participante), cada vez um pouco mais, a riqueza do Brasil.
Toda a multiplicidade cultural brasileira estava bem representada ali na Feira. A atual discussão sobre os rumos da música rolava solta nas mesas (do evento e dos bares). Pirei o cabeção com a sonzeira da banda pernambucana Ska Maria Pastora. Tinha desde o rockabilly do Dead Rocks até o suingue da moçada do Zé Cafofinho de Recife. Muito divertido o show de Messias Holanda, cantando várias vezes seu sucesso: “Eu quero me trepar/num pé de coco/pra saber se o coco é oco”.
Ali na Praça Dragão do Mar (símbolo da luta contra a escravidão), o fechamento do evento com o Emicida foi tanto uma aula de hip-hop, com qualidade poética (letras, verdades, rimas, aliterações – fugindo dos chavões) e sonora (bases inusitadas), quanto uma reflexão instigante sobre a vida.
“O mar é imenso e vários tão emocionado só com a brisa” (Emicida).
Na praia do Futuro, senhor Ossian, proseando comigo, arrematou com lucidez: “aqui é o paraíso... se tiver grana”. Felizmente eu tinha as patativas e mais algumas moedinhas. Pois, realmente, se você não tiver um trocado qualquer no bolso, o céu pode virar um inferno. Muita miséria no paraíso. Muito pedinte, viciado em crack, e muito gringo, que curte um travéco, se esbaldando com a prostituição local.
Dessa forma, a velha discussão dos anos 50 (ISEB. CEPAL e a esquerda nacionalista) sobre o “subdesenvolvimento” volta à tona de forma caricata, quando vemos o “sub”desenvolvimento dando prazer ao “rico desenvolvido”. A população local (se) vendendo por alimentação, para os gringos, ou seja, sendo comida para comer.
Mas, pensando bem, Goiânia também é uma metáfora dos brasis, com suas contradições. Aqui você encontra de tudo: desde criança cheirando cola no sinaleiro até as mulheres mais lindas do país.
LÁ é o melhor lugar pra se (re)ver o AQUI.
“O Brasil que saca e o Brasil que soca” (como canta Seu Jorge). O litoral (voltado para a Óropa) e o sertão (esse “desconhecido” que somos). Multiplicidade na cidade.
Texto publicado no último domingo no Diário da Manhã:
AGOSTO GOSTOSO
Assim que o percussionista Sérgio Pato (o carisma em pessoa) desceu do palco, alguém gritou: “Bom pra carái!”. Pato respondeu: “Pra carái, não... pra xoxota. Carái é pra quem gosta”.
Tem gosto pra tudo nesse mundo. E Goiânia oferece um amplo cardápio para os consumidores (e produtores) de arte, com essa tal de Revirada Cultural. Como cantava Raul: “É tanta coisa no menu que eu nem sei o que comer”. Até eu (que sou só um velho ranzinza de cueca no meio da sala cantando “I Can't Get No Satisfaction!”) devo dar o braço a torcer e exclamar: “Mas que agosto mais gostoso!”
Agosto já chega ao fim. “O ano voou”, muitos pensam, e penso, cá com meus botões: Não é que Goiânia, nesse mês, teve pra todos os gostos? Do sertanejo ao rock, da MPB ao hip-hop. Poesia, Cartum, Teatro, Dança, Cinema e o diabo a quatro fizeram parte do caldeirão cultural que a cidade ofereceu nesse mês de dá gosto – e continuará a oferecer no mês “que entra”, com a programação da Revirada, que notabiliza-se como um grande fato social. Um mês inteiro de programações artísticas é de tirar o chapéu!
Um senhor descia a rua do lazer e se espantou com a programação musical ali, que fazia juz ao nome da rua. Ele sempre achou o centro de Goiânia morto, pois só via bar e igreja, enquanto alternativa noturna. O véi se surpreendeu com a programação nota 10 na rua 8!
É realmente surpeendente ver a cidade fervilhando cultura, respirando arte em várias esquinas e para todos os gostos. Nem citarei exemplos do que rolou e do que está rolando, para não ser injusto com ninguém. Sugiro que você mesmo acompanhe toda a programação lá no blog: http://reviradaculturalgoiania.blogspot.com/
Agora, o que dá desgosto é saber que Goiânia tem essa cena cultural rica e o Centro Cutural Niemeyer está lá entregue às traças. É triste ver esse espaço que virou um monumento artístico do descaso. Diante do caso, a moçada não ficou sem fazer nada, só reclamando e coçando o saco. Fez da indignação, ação. O Rock pelo Niemeyer foi um alerta e outras maniFESTAções virão. O PCult (Partido da Cultura) exige dos candidatos um programa definido para o setor cultural. As forças pela cultura tem se mobilizado – o que é um gesto positivo. Lembro-me que, uma vez, o professor Nars Chaul me disse na sala de aula: “Falta nos goianos, o que sobrou nos baianos. Ou seja, a união”. Falávamos sobre o Tropicalismo. Parece que esse quadro está começando a mudar.
Falando nisso, tenho uma música, composta em parceria com meu amigo Kleuber Garcêz, que diz: “Eu sou um bicho urbano-rural, viola no meu rock’n’roll, dançando entre o bem e o mal, eu vou”. Essa é minha visão de Goiânia. Aliás, uma visão de dois “bichos urbanos”, pois essa letra saiu do “entre” Senador Canedo e a Campininha (ou seja, de um bairro que se emancipou e do outro lado, o bairro mais antigo que a própria capital).
Semana passada em Fortaleza, com a banda Diego e O Sindicato, vi uma tradição fortalecida, convivendo com a diversidade. Já em Goiânia, capital ainda nova, a cultura está sendo construída dia a dia. A nossa leitura do passado, no presente, e nossa interpretação do atual mais nossos projetos é o que fará o futuro. É o futuro que diz sobre o passado.
Enquanto isso, um cara elogia a música de Pato: “Do caralho! Bom pra caralho!”. E Pato, tranquilamente, responde: “Cuidado pra não engasgar...”
Desde 2007 juntos, Diego de Moraes e O Sindicato firmaram-se como um dos mais criativos grupos da cena independente através de uma rica mistura de sons. Em 2010, o grupo prepara o lançamento do seu primeiro disco, intitulado “Parte de nós”, que conta com a participação de Astronauta Pingüim nos teclados.
A rainha do rock-brazuca, a mutante Rita Lee (tradução de Sampa, pro mano CaRetano ), tocará no próximo sábado (21) num palco goianiense – no mesmo dia que completará 21 anos em que Raul Seixas “vive EM sua obra”. Diante desse fato convergente de dois mitos, eu (“Raul do Cerrado”, segundo o bebum da esquina, e “Neo-tropicalista”, segundo a revista Rolling Stone) decidi, daqui do meu pontinho-de-vista, escrever a istória (com i mesmo – vide Millôr Fernandes) a seguir:
CRÔNICA
Três personagens: um emo, um indie e um raulseixista. 1 – O emo é, segundo alguns, um dos modismos dominantes, na época do Febeapá cibernético-contemporâneo. O esnobismo emo se sustenta na pose (caras, bocas e franjas) de quem se sente o mais “muderno” do momento. Dizem que todo emo nega ser emo. Agora é From UK? Entre tantos, no fim, o emo parece ser o “mêmo” de sempre, com outra embalagem. 2 – O indie tupiniquim é, no geral, uma tribo social anti-social, típica dos filhos das classes abastadas, que negam tudo o que cheira a “popular”. Assim, manifesta-se como uma variação do espírito aristocrático (autocrático), uma espécie inserida no que Euclides chamou de “civilização de copistas”. 3 – Já o raulseixista simboliza um conservadorismo roqueiro idealizador do passado, um “saudosismo do não-vivido” hostil a toda novidade-pop. Às vezes o raulseixismo é anti-Raulzito (assim como a coisa mais anti-dialética/marxista foi o stalinismo), por não ser uma “metamorfose ambulante” iconoclasta. Em uma metrópole provinciana, como a nossa bela Goiânia, é muito comum encontrar todos esses tipos sociais neofascistas perambulando por aí, pelos bares da vida. Imagine um (des)encontro dos três-tigres-tristes... O emo (fenômeno social “dado”) passa balançando seu dadinho de pelúcia. O indie, com sua cara-de-bunda, escuta, no seu foninho/mundinho, qualquer coisa que a gente desconhece, pra se afastar o máximo possível da “realidade decadente”. O raulseixista, com camisa do Pink Floyd, toma pingorante e pensa o quanto o passado (antes dele nascer) era melhor. Os três caras se encaram. O emotivo se esquiva com o olhar. O indie-ota com seu olhar superior, por cima do óculos. O raul-chiita dá outro gole na catuaba-com-coca e arrota. Logo, não há dialogo. Onde Rita Lee entra na istória? Ora, o emo não quer saber dela, pois não é a última-nova-novidade bombando na net. O indie diz “prefiro Arnaldo”, mas já começa a esquecer o Lóki que caiu, um pouco mais, nas graças do público, ultimamente. O raulseixista cospe frases prontas do tipo “Rita é uma vendida”. Cada um segue seu caminho-inho-inhozinho. Enquanto a debochada Lee (en)canta “O que foi que aconteceu com a música popular brasileira?” e o genial Raul na atual “A verdade sobre a nostalgia” dizia “tudo quanto é velho eles botam pra eu ouvir”, penso e digo: “nem toda novidade é o novo, meu povo!”
MORAL DA ISTÓRIA
Não tem moral nessa istória, mas só a busca do equilíbrio aristotélico (tão fora de moda nos círculos “pós-modernos”)... nem dogma da nostalgia; nem apologia cega da novidade.
Notas: 1- Título vem de música do rei-lóki, Arnaldão Baptista 2- CaRetano: Apelido do “bai-huno” tropical, dado pelo Lobão 3- Febeapá: Festival de Besteira que Assola o País (no vocabulário de Stanislaw Ponte Preta, nos anos 60)
Meia noite e quatro e ele ali... um qualquer concentrado na sinuca, em uma segunda qualquer de um dia qualquer. Aproveita o seguro desemprego e a liberdade da solidão, sem saber se seu caso é angústia, tédio ou depressão.
“Sempre tem alguém faturando com a solidão de um ninguém num bar”, pensa ao olhar o olhar distante da senhora na mesa ao lado. Entre um gole de cerveja e outra tacada, conjectura sobre a vida:
A sinuca é a arte da exatidão, um poema concreto. A vida é inexata; porém, assim como a sinuca, é um jogo em que também se deve contar com a sorte, com o imprevisto e com o erro do outro. Sabe qual é o “segredo do sucesso”? O fracasso de alguém. Essa é a jogada. O Fred 04 já matou a charada: “Ou você explora o próximo ou o próximo será você”.
Após outra derrota (pro brother de sinuca) sai tranqüilo, acostumado com o fracasso. Vai prum hotel vagabundo, esperar o dia amanhecer – nesssa hora da madruga, já não há mais ônibus. Não há mais nada, aliás. Outra data já chegou e o dia ainda não amanheceu. Já é o futuro e parece que nada mudou. Será que o po(RR)eta Leminski (bandido que sabia latim) estava certo com seus versos: “apenas o mesmo OVO de sempre/ chocando o mesmo NOVO”? Ou fico com o filósofo Vieira Pinto: “O novo de cada dia só se torna visível algum dia”? Não há tempo pra pensar, aqui.
Há sono. Antes de desmaiar naquela cama (“usada” horas antes por um respeitado empresário da cidade e seu garoto), mija e olha (o que vêem) o que resta de si, no espelho. Lembra-se de trechos de duas músicas, ao ver-se, NÚ, no silêncio: “O espelho é o retrato que nunca mente” (Zé Rodrix). “O banheiro é a igreja de todos os bêbados” (Cazuza).
Dorme. O sol nasce. Acorda e se pergunta a banalizada questão existencialista, cantada por uma dupla sertaneja “ONCOTÔ?”. Não sei, mas deve achar o sentido. O sentido pra casa. Caminha até o ponto e o ônibus o pega.
O estômago se embrulha. Vomitar? “Não posso”. Segure. “Vou vomitar”. Não pode. “Aqui no ônibus não posso”, pensa.
Ao redor da tragédia do inútil: vários seres (senhores e senhoras, úteis utensílios) vivem suas tragédias particulares, determinadas socialmente. No ônibus (espaço social sem sociabilidade) cada ser, suando, na sua. Ninguém se pergunta a velha “Pronde vou?”. Só pensam em chegar logo, resolver logo pra, logo, voltar logo. Esse é um logos dominante: acordar com vontade de dormir, ir com vontade de voltar.
Vontade de vomitar. Nojo. Porém não pode. Outros no ônibus com outros nojos – do tarado que se esfrega, do pedinte bebum, da vida morimbunda e, principalmente, do próprio fato do trabalhador ser tratado pior que gado.
Nosso protagonista puxa a cordinha. Desce desesperado. “Não aqui na avenida comercial”. Caminha segurando a explosão gósmica.
“Cheguei na rua da minha casa!”. Aqui? Menos ainda, meu caro. “Meus visinhos não podem assistir minha decadência em plena terça”. Isso! Cê não é mais criança! E assim, olhando o olhar alheio, sentindo o inferno do big-brother na pele, carregando todo o sofrimento humano no estômago e à beira do “splach!”, ele sobe a rua. Repressão civilizacional até o último momento.
Gostinho de vômito já aponta na boca. Destranca o portão. Vomita no alpendre de sua casa.
1 O Título vem do poema (inédito) “Volátil” de Pio Vargas :
“Quando bêbado, vôo
mito
nas asas
de um bu-
teco-teco.”
Nota: Um grande abraço ao escritor Luiz Sampaio, aos produtores Juliana Marra e Kaio Bruno e ao professor João Alberto, por se manifestaram sobre a "Crônica do Criolo Doido", da semana passada! O incentivo à iniciativa é sempre bem-vindo!
Escoliose Crônica
(publicado no jornal Diário da Manhã, em 08 do 08 de 2010):